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FLORESTA PARA SEMPRE
Um Manual para a Produção de
Madeira na Amazônia






Belém - Pará
1998



Autores
Paulo Amaral
Adalberto Veríssimo
Paulo Barreto
Edson Vidal
Edição de texto
Tatiana Corrêa
Colaboradores
Andrew Holdsworth, Christopher Uhl, Fabiana Isller, Johan Zweede e
Robert Buschbacher
Ilustração
Flavio Figueiredo
Revisão
Maria Cabral
Agradecimentos
Analuce Freitas, Antônio Carlos Hummel, Catarina Amaral, Daniel
Nepstad, Damião Lopes, Eric Stoner, James Lockman, Jeffrey Gerwing,
Joberto Veloso, Jorge Yared, Paulo Lyra, Roberto Bauch, Virgílio Viana.
Agradecimentos institucionais
Caterpillar do Brasil, ITTO (Fellowship program), Jari Celulose, Stihl,
Indústrias Santo Antônio (Persio Lima) e Serviço Florestal dos Estados
Unidos (USDA Forest Service).
Apoio Editorial
Biodiversity Support Program (BSP), um consórcio entre World Wildlife
Fund, The Nature Conservancy e o World Resources Institute; com apoio
da agência USAID (Agência Norte Americana para o Desenvolvimento
Internacional).
As opiniões expressas neste trabalho são de responsabilidade dos autores e não
refletem necessariamente a visão da USAID.

AMARAL, Paulo Henrique Coelho; VERÍSSIMO, José Adalberto de Oliveira;
    BARRETO, Paulo Gonçalves; VIDAL, Edson José da Silva. Floresta para
    Sempre: um Manual para Produção de Madeira na Amazônia.

    Belém: Imazon, 1998. pp 130




PREFÁCIO


Durante anos alimentou-se o mito de que os danos ambientais causados pela exploração madeireira eram inevitáveis. Os argumentos variavam: pouco conhecimento da floresta, técnicas inviáveis economicamente, equipamentos inadequados, etc. Este manual coroa um trabalho de sete anos de estudos, pesquisas e testes que, por fim, desmitifica o manejo florestal na Amazônia. É possível diminuir os impactos ambientais causados pela exploração madeireira e aumentar o lucro da exploração. O que está aqui colocado é fruto de um meticuloso esforço iniciado com a identificação das causas dos danos ambientais. Ao finalizar o trabalho de pesquisa concluiu-se que os impactos sobre o meio ambiente resultavam, principalmente, da falta de planejamento e do uso de técnicas inapropriadas. Surgiu assim o desafio de desenvolver e testar um modelo alternativo que não exigisse um maior investimento financeiro, mas apenas informações e treinamento. Com a colaboração de madeireiros, foram testadas técnicas existentes, determinando as mais adequadas à realidade amazônica.

Esse é o maior mérito do manual. Em vez de procurar técnicas complexas, caras e de alta tecnologia propõe um modelo composto de medidas já comprovadas e práticas de baixo custo adequadas à realidade ambiental, econômica e social da região. A adoção desse modelo em larga escala pode causar uma revolução no uso dos recursos florestais na Amazônia, contribuindo para o desenvolvimento sustentado da região. Os "segredos" do modelo idealizado estão agora disponíveis a todos através do manual, assim como em vídeo. Ambos são de grande utilidade para empresas madeireiras, engenheiros, técnicos e trabalhadores florestais.

Os esforços em disseminar os resultados do Projeto Piloto de Manejo Florestal e o impacto dos seus resultados foram recentemente reconhecidos pelo prêmio Henry Ford 1997 de Conservação Ambiental.
Garo Batmanian
Diretor Executivo
Fundo Mundial para a
Natureza (WWF)



SUMÁRIO





INTRODUÇÃO

A Amazônia tem recursos florestais imensos abrigando um terço das florestas tropicais do mundo. A região produz 75% da madeira em tora do Brasil. As exportações ainda são modestas (em torno de 4% do comércio global de madeiras tropicais), mas devem crescer com a exaustão das florestas asiáticas. A previsão é de que antes do ano 2010 a Amazônia será o principal centro mundial de produção de madeiras tropicais. As práticas de exploração madeireira na Amazônia podem ser caracterizadas como "garimpagem florestal". Inicialmente, os madeireiros entram na floresta para retirar apenas as espécies de alto valor. Em seguida, em intervalos cada vez mais curtos, os madeireiros retornam à mesma área para retirar o restante das árvores de valor econômico. O resultado é uma floresta com grandes clareiras e dúzias de árvores danificadas. Tais condições facilitam a entrada e a propagação do fogo, aumentam as espécies sem valor comercial e dificultam a regeneração de espécies madeireiras.

A dinâmica da exploração não manejada favorece a ocupação desordenada da região. Nas áreas de fronteira, são os madeireiros que constroem e mantêm estradas de acesso às florestas, o que geralmente conduz à colonização "espontânea" por pequenos agricultores e, em alguns casos, invasão de unidades de conservação e terras indígenas. As causas para a exploração predatória são várias, dentre elas a falta de uma política florestal coerente para a região que incentive o manejo e realize um zoneamento florestal.

O zoneamento é essencial, pois permitiria diferenciar as áreas com vocação florestal daquelas que deveriam ser mantidas fora do alcance da exploração madeireira Um estudo de zoneamento florestal, realizado pelo Imazon no Pará, mostrou que em 19% do Estado não há recurso madeireiro; 32% são áreas mais apropriadas para a atividade madeireira; enquanto os 49% restantes deveriam ser protegidos da exploração. As zonas proibidas incluiriam as áreas legalmente protegidas (terras indígenas e unidades de conservação 29%), bem como áreas não protegidas mas de alta prioridade para conservação (20%).

Nas áreas destinadas à atividade florestal, a exploração madeireira deve ser feita de forma manejada. A adoção do manejo possibilita a manutenção da estrutura e composição de espécies da floresta enquanto gera benefícios sociais e econômicos.


1. Por que manejar as florestas?

As principais razões para manejar a floresta são:

· Continuidade da produção. A adoção do manejo garante a produção de madeira na área indefinidamente, e requer a metade do tempo necessário na exploração não manejada.

· Rentabilidade. Os benefícios econômicos do manejo superam os custos. Tais benefícios decorrem do aumento da produtividade do trabalho e da redução dos desperdícios de madeira.

· Segurança de trabalho. As técnicas de manejo diminuem drasticamente os riscosde acidentes de trabalho. No Projeto Piloto de Manejo Florestal (Imazon/WWF), os riscos de acidentes durante o corte na operação manejada foram 17 vezes menor se comparado às situações de perigo na exploração predatória.

· Respeito à lei. Manejo florestal é obrigatório por lei. As empresas que não fazem manejo estão sujeitas a diversas penas. Embora, a ação fiscalizatória tenha sido pouca efetiva até o momento, é certo que essa situação vai mudar. Recentemente, tem aumentado as pressões da sociedade para que as leis ambientais e florestais sejam cumpridas.

· Oportunidades de mercado. As empresas que adotam um bom manejo são fortes candidatas a obter um "selo verde". Como a certificação é uma exigência cada vez maior dos compradores de madeira, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, as empresas que tiverem um selo verde, provando a autenticidade da origem manejada de sua madeira, poderão ter maiores facilidades de comercialização no mercado internacional.

· Conservação florestal. O manejo da floresta garante a cobertura florestal da área, retém a maior parte da diversidade vegetal original e pode ter impactos pequenos sobre a fauna, se comparado à exploração não manejada.

· Serviços ambientais. As florestas manejadas prestam serviços para o equilíbrio do clima regional e global, especialmente pela manutenção do ciclo hidrológico e retenção de carbono.

2. O sistema de manejo apresentado no manual

O sistema de manejo apresentado no manual consiste em explorar cuidadosamente parte das árvores grandes de tal maneira que as árvores menores, a serem exploradas no futuro, sejam protegidas. Além disso, o plantio de mudas é recomendado para as clareiras onde a regeneração natural seja escassa. Desta forma, a produção de madeira pode ser contínua.
Esse sistema de manejo foi aplicado no Projeto Piloto de Manejo Florestal por pesquisadores do Imazon no pólo madeireiro de Paragominas, Pará. O desenvolvimento do plano de trabalho foi baseado em estudos do Imazon na região de Paragominas, bem como na literatura disponível.
O estudo foi realizado em 210 hectares de floresta densa de terra firme. O solo da área é latossolo amarelo. A topografia é relativamente plana (declividade inferior a 5 graus). Da área total, 105 hectares foram explorados de forma manejada; 75 hectares de forma convencional (predatória ou não manejada) e 25 hectares foram mantidos intactos para estudos comparativos. A exploração nas duas áreas foi mecanizada, com o uso de tratores para abrir estradas e fazer o arraste das toras até pátios de estocagem na floresta.A intensidade de exploração também foi similar (cerca de 5 árvores extraídas por hectare).
Em geral, a situação descrita neste manual (floresta densa, latossolo amarelo, exploração intensiva e mecanizada) corresponde à maior parte da exploração madeireira de terra firme existente na Amazônia.


3. Para quem foi escrito este manual?

O manual é destinado a todos os atores envolvidos na atividade madeireira, incluindo madeireiros, organizações comunitárias, pequenos produtores, gerentes e trabalhadores da exploração florestal, técnicos florestais (nível médio e superior), estudantes de engenharia florestal, técnicos dos órgãos públicos ambientais e florestais.

4. O conteúdo do manual?

O manual está dividido em 11 capítulos. Os primeiros oito capítulos seguem a ordem cronológica da elaboração e execução do plano de manejo. Os três últimos tratam de proteção contra o fogo, práticas silviculturais e análises de custos e benefícios do manejo florestal.
O Capítulo 1 mostra como elaborar o plano de manejo florestal, incluindo o zoneamento da propriedade (áreas de preservação permanente, áreas inacessíveis e áreas de exploração), o desenho da rede de estradas secundárias e a divisão da área em talhões menores (a área anual de exploração).
O Capítulo 2 (Censo Florestal) trata da demarcação do talhão e do censo das árvores de valor comercial (identificação, avaliação, medição e mapeamento).
No Capítulo 3 mostra-se a importância do corte seletivo de cipós na redução dos danos às árvores remanescentes e na redução de riscos de acidentes durante a exploração.
A partir dos dados do censo é produzido o mapa preliminar da exploração (Capítulo 4). Esse mapa contém o traçado das estradas, ramais de arraste e pátios de estocagem e a indicação da direção de queda desejável das árvores.
Tendo como base o mapa preliminar de exploração, uma equipe de campo faz a demarcação das estradas, pátios, ramais de arraste e direção de queda das árvores (Capítulo 5). Essa demarcação, feita com fitas coloridas amarradas nas balizas, serve para orientar a abertura de estradas e pátios (Capítulo 6), para localizar e derrubar as árvores de valor comercial (Capítulo 7) e, em seguida, arrastá-las com o trator até os pátios de estocagem (Capítulo 8).
O Capítulo 9 revela os efeitos nocivos do fogo sobre a floresta explorada e sugere várias medidas para reduzir os riscos de incêndio florestal.
O Capítulo 10, por sua vez, mostra quais são as medidas para aumentar o crescimento de espécies de valor e como fazer o plantio de enriquecimento em clareiras.
Finalmente, o Capítulo 11 detalha os custos e os benefícios do manejo florestal do Capítulo 1 ao Capítulo 8.
O manual traz também dois apêndices. O primeiro é uma lista com os nomes vulgares e científicos das espécies de valor madeireiro na Amazônia. O Apêndice 2 destaca 41 espécies de valor comercial potencialmente ameaçadas de sofrerem redução populacional quando submetidas à exploração madeireira.

5. Considerações sobre o manual

Primeiro, é importante ressaltar que o manual é um guia para o aprendizado sobre manejo, devendo ser complementado com treinamento de campo. Segundo, as técnicas apresentadas neste manual visam a manutenção da biodiversidade e garantia de produção constante de madeira. Porém, ainda são necessários estudos complementares para documentar melhor os impactos do manejo sobre a biodiversidade. Terceiro, as colheitas e a composição florística futura podem sofrer alterações ao longo do tempo.
Isso em virtude da entrada de novas espécies no mercado e também da diferença na composição das espécies entre as classes de diâmetro. Finalmente, a pesquisa florestal está em franca evolução e, portanto, algumas recomendações feitas neste manual podem sofrer alterações no futuro.




Este manual preenche uma lacuna histórica do manejo florestal na
América Latina como um todo. Deverá ter grande valia para técnicos,
pesquisadores, estudantes, lideranças de movimentos sociais e ONGs, e todos
os demais profissionais relacionados com o tema. Trata-se de uma notável
contribuição para a conservação florestal e o desenvolvimento da Amazônia.
Dr. Virgílio Maurício Viana
Professor - Esalq/USP


O tema manejo florestal, privilégio de poucos conhecedores da
linguagem acadêmica, desmitifica-se diante da simplicidade, objetividade e
alta qualidade deste trabalho. O manual deverá promover o enriquecimento
do debate sobre a exploração madeireira na região, contribuindo para a adoção
das práticas de manejo florestal na Amazônia.
Roberto Vergueiro Puppo
Presidente - AIMEX


O manual de manejo florestal com ênfase na exploração de baixo
impacto é o primeiro documento prático e detalhado para os diversos atores
envolvidos na produção de madeira na região amazônica. A Fundação Floresta
Tropical tem utilizado e testado a metodologia deste manual em doze
localidades da Amazônia, comprovando que as suas recomendações são
práticas e aplicáveis.
Johan Zweede
Diretor Técnico
Fundação Floresta Tropical


O desenvolvimento sustentável da Amazônia deve partir de sua
vocação florestal. Este manual vem fortalecer a idéia de disseminação das
técnicas de manejo da floresta. Acredito que irá contribuir para a consolidação
de uma nova cultura produtiva, a qual entende a produção florestal como
elemento capaz de compatibilizar conservação da biodiversidade e
desenvolvimento.
Fábio Vaz de Lima
Secretário Executivo
Grupo de Trabalho Amazônico - GTA


Este manual é pioneiro na Amazônia tendo o mérito de reunir um
grande número de conhecimento sobre as diversas atividades do manejo, e
de apresentá-las em detalhes operacionais. É uma obra de grande utilidade
para engenheiros florestais e outros profissionais interessados em praticar o
bom manejo da floresta.
Dr. Jorge Yared
Diretor de Pesquisa
Embrapa-Cpatu


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