Eucalipto vilão ou herói? (5) - 04/11/2004
Local: Rio de Janeiro - RJ
Fonte: Jornal do Brasil
Link: http://jbonline.terra.com.br/
Nem vilão nem herói
Hiram Firmino
Autoridades e especialistas mostram que, plantado de maneira sustentável, mais que uma necessidade de mercado e de empregos, o eucalipto faz bem para a natureza e para o país.
Além de antiga e insustentável, é falsa a crença de que o eucalipto e o pinus fazem mal ao meio ambiente. O verdadeiro dilema do setor está em saber se mostrar sério, necessário e imprescindível ao desenvolvimento ambientalmente correto do Brasil e do mundo. Saber promover um debate amplo, informativo e participativo. "Superar preconceitos e construir caminhos". Foi o que apontou de maneira feliz, o engenheiro-florestal e ex-ministro de Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, na abertura do "Madeira 2004 - 2º Congresso Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável para a Indústria de Base Florestal e de Geração de Energia", realizado de 13 a 15 de outubro último, em Belo Horizonte.
Segundo o hoje secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas, o estado com maior quantidade de florestas plantadas do país - 1,6 milhões de hectares -, desde que respeitados os pressupostos de sustentabilidade, não se pode mais sustar o crescimento do setor:
"O uso da terra no Brasil é o debate mais sério e necessário da atualidade. Temos hoje 90 milhões de hectares de áreas desmatadas ou 900 mil km2 de terras degradadas, sem qualquer aproveitamento econômico em todo o território nacional. Se de um lado isso é ruim, por outro é uma realidade. Nós não precisamos mais desmatar florestas nativas no país. Pelo contrário, podemos dar um salto tecnológico, ambiental e social jamais possível como agora em nossa história".
A "solução patriótica" está em deslocar o eixo de produção e consumo atual de madeira, segundo defendeu Carvalho, lembrando a participação antecessora, muito mais devastadora e degradante dos ciclos do café e cana-de-açúcar, depois da pecuária e do cultivo de pastagens na paisagem florestal brasileira. Seja para uso doméstico, como lenha, ou industrial, como celulose e papel - ele apontou - o novo e sustentável eixo está no aproveitamento e no crescimento das florestas plantadas:
"Nenhum país que se respeita e respeita o planeta, as pessoas que moram nele e precisam de empregos limpos que as mantenham onde estão, sem necessidade de se mudarem e virarem favelados na periferias das grandes cidades, pode deixar 900 mil km2 de terras degradadas sem plantar. O nosso futuro está aí. É só fazer a coisa certa, ecologicamente correta, e não permitir que forças preconceituosas e sectárias tentem manter o preconceitos e interesses escusos."
Ele se referiu às ongs supostamente a serviço de outros países menos competitivos, interessadas em interferir no governo Lula para proibir ou dificultar novos plantios de eucaliptos em larga escala no país: "É isso que temos de enfrentar".
MOBILIZAÇÃO - Para um país que tem apenas 5 milhões de hectares de florestas plantadas, reflorestar 90 milhões de hectares de terras desmatadas e degradadas não significa plantar somente eucalipto e pinus. Mas, de maneira consorciada, também replantar, proteger e conservar um terço dessa área, em média, com espécies nativas. Ganha a produção sócio-econômica de um lado, ganham a natureza e o meio ambiente de outro. Ganha o país. Ganha o governo. Ganham todos.
Esse foi o recado do presidente da Abraf-Associação Brasileira dos Produtores de Floresta Planta e da Aracruz Celulose, Carlos Aguiar. Ao falar durante o painel "Mobilização para o Fortalecimento do Setor Florestal" do Madeira 2004, ele demonstrou que florestas plantadas concorrem para a melhoria ambiental, ao contrário do que ainda se apregoa negativamente:
"Há 30 anos eu estou no setor, enfrentando suas dificuldades, promovendo mudanças, aumentando consciências e testemunhando melhorias. Junto aos nossos eucaliptais, nós preservamos 1,6 milhão de hectares de áreas de preservação permanente. E, mesmo assim, até hoje nunca recebi um convite de uma universidade para ser parceiro, transferir conhecimento, debater e esclarecer o assunto" - disse Aguiar, lembrando que, enquanto governo e sociedade não incentivam o crescimento de florestas plantadas, o Brasil continua sendo desmatado:
"A tragédia continua e explica o apagão florestal que estamos sentindo na pele. Estão desmatando tudo e em todo lugar das florestas nativas que ainda temos, para alimentar de fogões a lenha ao crime organizado. Dos 300 milhões de metros cúbicos de madeira/ano consumidos no país, só um terço vem de florestas plantadas, quando tudo poderia vir só delas, preservando a natureza". Para o presidente da Abraf, a luz já acendeu no fim do túnel: "Nós sabemos que madeira é um produto fundamental em qualquer sociedade, e que ninguém vai parar de consumi-la, daí a necessidade da sua produção sustentável. É isso que queremos passar para o governo, para a sociedade. Além de desopilar as favelas, fixando o homem no campo e evitando o êxodo rural, o crescimento do setor pode evitar, mais que o apagão florestal, a saída de divisas do país, com a absurda importação de madeira de outros países vizinhos, como o Chile.
RIQUEZA NACIONAL - A questão ambiental já está depurada no setor: "Felizmente nós acordamos! Não aceitamos em nossos quadros empresas que não têm responsabilidade ambiental e social", disse o presidente da Abraf, ao mostrar o tamanho e a influência do setor em um país onde o governo ainda não tem uma política florestal definida e proativa.
Em termos de ecologia humana, o setor de madeira, papel e celulose emprega dois milhões de brasileiros, entre diretos e indiretos. O faturamento, de US$ 21 bilhões/ano, corresponde a 4% do PIB nacional. E os produtos florestais correspondem a 10% do total das exportações brasileiras de produtos industriais, só perdendo para o setor de veículos e autopeças.
Carlos Aguiar lembrou que não basta ao setor lutar para que o plantio correto de eucalipto cresça no país. Tão importante, defendeu, é lutar também politicamente pela informação correta e sua conseqüente politização: " Não basta ser um bom executivo, levar lucro à empresa e ficar levando pancada. Antes, nós ficávamos calados, tínhamos medo de defender o eucalipto e sua importância na vida de todos nós. E a mentira, dita sempre do outro lado, acabou virando verdade em um país que hoje planta soja em 60 milhões de hectares, onde não se vê uma só árvore. Já fomos acusados de secar 100 rios no Espírito Santo. Só que o dobro de rios já secou onde não havia um só eucalipto plantado". E concluiu:
"Ao contrário dos países mais desenvolvidos, ainda existe muito preconceito também contra o setor empresarial no Brasil, como se qualquer atividade envolvendo negócios fosse coisa de satanás. Não é. Dentro de cinco ou seis anos, esperamos que, mais valorizado, o setor vai mostrar isso".
DEMAGOGIA LAVADA - Foi o termo usado pelo deputado federal José Santana de Vasconcellos contra as críticas ao setor, de que o eucalipto inviabiliza o meio ambiente. Autor do projeto de lei 3842 que enquadra o cultivo de florestas plantadas como atividade agrícola, portanto no âmbito do Ministério da Agricultura, ele defendeu o reflorestamento como o caminho mais certo para empregar todo tipo de brasileiros, incluindo aqueles que jamais passaram por um banco escolar:
"Demagogia é ninguém apresentar uma outra alternativa tão viável como essa, capaz de fixar nossos trabalhadores no campo, com assistência médico-social completa. A única alternativa que o Brasil e o governo Lula têm hoje para, inclusive, salvar a Amazônia do desmatamento em curso".
RANKING MUNDIAL
Em milhões de hectares
China........................ 45
Índia..........................32
Rússia....................... 17
EUA......................... 16
Canadá....................... 6
Japão.........................10
Brasil........................ 5
RANKING NACIONAL
Minas.................. 1.678
São Paulo............ 776
Paraná................. 672
Bahia.................. 451
Santa Catarina ... 359
Rio G. do Sul.... 252
Espírito Santo... 152
Outros............... 990
TOTAL........... 5.000
EMPRESAS ASSOCIADAS
São estas as empresas que integram a Abraf:
Acesita, Aracruz, Araupel, Bahiapulp, Caf/Belgo/Acelor, Cenibra, Duratex, Eucatex, Gerdau, Internacional Paper Klabin, Lwarcel, Plantar, Rigesa, Rima, Ripasa, Satipel, Suzano/Bahia-Sul, Terranova, V&M Florestal, VCP, Veracel
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